sábado, 13 de agosto de 2016

Crônicas de Paulo Cezar Lemos: Os idiotas confessos

Jornalista e escritor brasileiro, Nelson Rodrigues é considerado o mais influente dramaturgo do país. Diversos livros e inúmeras crônicas foram escritos por este talentoso autor. Selecionei uma crônica de sua autoria, da qual retirei fragmentos que se fazem muito atuais, embora tenha sido escrita em 1968. “Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: – tão cristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: – o primeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem. No passado, o marido era o último, a saber. Sabiam os vizinhos, os credores, os familiares, os conhecidos e os desconhecidos. Só ele, marido, era obtusamente cego para o óbvio ululante. Sim, o traído ia para as esquinas, botecos e retretas gabar a infiel: ―Uma santa! Uma santa! Mas o tempo passou. Hoje, dá-se o inverso. O primeiro a saber é o marido. Pode fingir-se de cego. Mas sabe, eis a verdade, sabe. Lembro-me de um que sabia endereço, hora, dia etc. etc. E o imbecil como tal se comportava. Nascia numa família também de imbecis. Nem os avós, nem os pais, nem os tios, eram piores ou melhores. E, como todos eram idiotas, ninguém pensava. Tinha-se como certo que só uma pequena e seletíssima elite podia pensar. A vida política estava reservada aos ―melhores. Só os ―melhores, repito, só os ―melhores ousavam o gesto político, o ato político, o pensamento político, a decisão política, o crime político. Nunca, nunca o idiota ousaria ler, aprender, estudar, além de limites ferozes. Vejam bem: – o imbecil não se envergonhava de o ser. Havia plena acomodação entre ele e sua insignificância. E admitia que só os ―melhores podem pensar, agir, decidir. Pois bem. O mundo foi assim, até outro dia. De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais, descobriram: – a vergonhosa inferioridade numérica dos ―melhores. Para um ―gênio, 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: – trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão. Se o orador fosse Cristo, ou Buda, ou Maomé, não teria a audiência de um vira-lata, de um gato vadio. Outrora, os imbecis faziam plateia para os ―superiores. Hoje, não. Hoje, só há plateia para o idiota. É preciso ser idiota indubitável para se ter emprego, salários, atuação, influência, amantes, carros, joias etc. etc. Quanto aos ―melhores, ou mudam, e imitam os cretinos, ou não sobrevivem. Os idiotas explodem por toda parte: são professores, sociólogos, poetas, magistrados, cineastas, industriais. O dinheiro, a fé, a ciência, as artes, a tecnologia, a moral, tudo, tudo está nas mãos dos patetas. E, então, os valores da vida começaram a apodrecer. Sim, estão apodrecendo nas nossas barbas espantadíssimas. As hierarquias vão ruindo como cúpulas de pauzinhos de fósforos. Nem se pense que a ―invasão dos idiotas só ocorreu no Brasil. Se fosse uma crise apenas brasileira, cada um de nós podia resmungar: ―Subdesenvolvimento – e estaria encerrada a questão. Mas é uma realidade mundial. Em que pese a dessemelhança de idioma e paisagem, nada mais parecido com um idiota do que outro idiota. Todos são gêmeos, estejam uns aqui, outros em Cingapura. Agora é preciso adular os idiotas, conquistar-lhes o apoio numérico. Hoje, até o gênio se finge imbecil. Nada de ser gênio, santo, herói ou simplesmente homem de bem. Os idiotas não os toleram”.

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