quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

As Crônicas de Paulo Cezar Lemos: O Lobisomem e a Mula Sem Cabeça

O mito do lobisomem chegou ao Brasil com os portugueses e os padres. Foi uma estratégia da igreja contra a feitiçaria e uma forma inteligente de fazer renascer o demônio e deixar os fiéis com mais obrigação de buscar a proteção religiosa. Apesar disto, muitos folcloristas tentam encontrar tais entidades nos mitos africanos. Resumidamente, o lobisomem se formaria assim: Estará desgraçada a família que tendo seis filhos, não prometer à Santíssima Trindade "dar" o nome de mulher ao sétimo, se nascer homem, e de homem, se nascer mulher. Caso esta promessa não seja concretizada, ao fim de exatos sete anos um deles vira Lobisomem, se o último não for batizado José Maria, ou Maria José, conforme o sexo. Ninguém nasce lobisomem, mas vira. Trata-se de um bicho cabeludo, com a cara amarela, lobo verdadeiro e homem verdadeiro, com a barriga estufada cara bem afunilada, orelhas bem grande e caída e pés de cachorro. Segundo o mito, a pessoa, geralmente homem, vai amarelecendo e inchando. A cara se acomprida, as orelhas se alargam e os pés começam a encurtar. As unhas afinam-se e aguçam-se. Os cabelos crescem e se encaracolam ou se apinham, sem que haja vontade nem lembrança de cortar. A pessoa dá para ter um sono pesado assim como aquelas que se encontram na mesma casa, e até os vizinhos são atingidos por um “sono de pedra”. O infeliz evita as pessoas, anda sempre afastado, apreensivo, quase sem dizer palavra. E todos respeitam esse seu estado jurando que nunca foi outro. O "mal" dá sempre na primeira "sexta-feira depois da quarta-feira de Cinzas", mais ou menos à meia noite, e repetem-se todas as semanas até o desencanto ou a morte do "bicho". A pessoa acorda, olha para um lado e para o outro e, sem que se veja e nem se ouça, vai sorrateira, nas pontinhas dos pés, abre a porta e no chiqueiro, no meio dos porcos, espoja-se até perder a forma humana e ganhar a de porco. Espoja-se de novo, "roncando" sempre, e então vira Lobisomem. Saindo do chiqueiro e tomando a estrada é perseguido por cães, que são os primeiros a acusarem a presença do bicho. Ao encontrá-lo, o lobisomem sangra, fere os cães que passam a ficar acabrunhados, tristes e com as caudas entre as pernas, os olhos assombrados, tímidos e com medo até de suas próprias sombras. A igreja criou o mito e a receita de como acabar com o mesmo. Para desencantar Lobisomem, devem-se chamar os anjos, os arcanjos, as potestades do céu, os poderes da Santa Igreja, benzer-se três vezes com a mão direita e três com a esquerda, fazer um signo-saimão com os pés e rezar o Credo em cruz. Para matar o lobisomem, o caçador, ao primeiro sinal de presença do bicho, corre para o mato, enfia o chapéu num toco de pau e esconde-se. Quando os galos cantam e o "cujo" vem "tirando" pra casa dá de frente com a "marmota" e assombra-se, parando antes de poder correr. Aí o caçador "arruma-lhe as brasas" e é uma só. Enterra-se o Lobisomem no mesmo lugar em que morreu. Só depois do sétimo dia é que a família dá por falta do que virou bicho e logo atribui o desaparecimento a um assassinato. A "justiça" vai direitinho à cova e volta com as mãos abanando: enterrado lá está um cachorrão. A Mula Sem Cabeça foi uma resposta dos que mexem com feitiçaria aos padres. Segundo este mito, ela é o produto da transformação de "toda" mulher de sacerdote católico nos mesmos dias e às mesmas horas que o Lobisomem. A mesma procura o lobisomem para transar. Quando não o encontra, se dirige aos pastos e às cavalariças satisfazer os cavalos rufiões. O nosso Folclore apresenta a mula de padre de um modo mais "elegante" e atraente. No Rancho da Burrinha, do Recôncavo baiano, que alguns Folcloristas pretendem achar um "rei-cavaleiro" não há mais do que uma ironia vestida num folguedo popular. A Burrinha é encargo para um Mestre-sala que vai dançando ruas afora ao som de instrumentos de cordas e de sopro e busca cantar diante de algum presépio. O Padre tratava a mulher com tantos mimos, que não era para o mundo lhe ver o corpo, o que é ressaltado pelo selim aveludado, as roupas, manta de panos finos, tafetá, que veste a burrinha no ato folclórico.

*É proibida a reprodução total ou parcial deste texto, por qualquer meio, sem prévia autorização
do autor  Prof. Paulo Cezar ou do site www.cruzdasalmasnews.com.br.

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