quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

As crônicas de Paulo Cezar Lemos: UM TRABALHO COM PERSISTÊNCIA E MUITA DETERMINAÇÃO

A jaqueira (Artocarpus heterophyllus) tem seu centro de diversidade no arquipélago indo malaio, que inclui além da Indonésia e Malásia, os territórios da Papua-Nova Guiné e vizinhos. Introduzida no Brasil a jaqueira se comportou desde o início como uma planta originária deste país, pois encontrou nas condições tropicais da América um ambiente adequado ao seu desenvolvimento. Seus frutos gigantes alimentam o homem do campo e serve de ração para seus animais domésticos, incluindo porcos, galinhas, bovinos, além dos asininos, equinos e muares. Bem adaptada ao Recôncavo e ao sul da Bahia a jaqueira através dos anos de reprodução sexuada produziu uma considerável diversidade em termos de sabor, odor, consistência, cor, tamanho e quantidade de “visgo” em seus frutos. Para escolher uma “boa jaca”, consideram-se estas características dentro dos grupos “mole” e “dura”. Desta forma, a multiplicação desta espécie por sementes (via sexuada) implica em dois problemas. O primeiro se refere ao início da produção, que pode começar do sexto ano em diante. Por outro lado, o segundo problema é que tipo de fruto será produzido, como serão suas características ao paladar. Por sementes não se pode garantir que uma “jaca boa” produza filhos com as mesmas características. Desta forma, para contornar estes dois problemas a saída é a reprodução assexuada, a clonagem de materiais escolhidos como superiores. Durante cerca de dez anos, desde a Escola de Agronomia da UFBA iniciei testes para multiplicar a jaqueira de forma assexuada (enxertada). A literatura que tratava do assunto era produzida basicamente por pesquisadores indianos e se fundamentavam no enraizamento de estacas e alporquia. Uma planta gigantesca, do porte da jaqueira exige um profundo sistema radicular para suportar o peso dos galhos, folhas e frutos, além do impacto dos ventos. Sempre busquei uma técnica que considerasse a formação de um sistema radicular robusto, o que foi encontrado na garfagem de topo. Após anos de tentativas no manejo do garfo e dos porta-enxertos foi definida a técnica e plantei 80 clones de elite produzidos a partir das melhores jaqueiras da região, segundo informações dos agricultores. A jaqueira da foto está com seis anos e é sua terceira safra. A persistência deste trabalho é um contraponto ao que as serrarias vêm fazendo com estas plantas. Quando alguém compra um sítio, o primeiro investimento é um motosserra. Derruba-se tudo, inclusive as jaqueiras. O poder público incluindo prefeitos e vereadores não se move quando toras de jaqueiras são queimadas de forma irracional nas fogueiras de São João. Todos tem que ter uma fogueira em sua porta. As massas seguem sem refletir. Repete-se o que os outros fazem. Como disse Nelson Rodrigues: “Se baixassem um decreto mandando a gente andar de quatro — qual seria a nossa reação? Nenhuma. Exatamente: — nenhuma. E ninguém se lembraria de perguntar, simplesmente perguntar. — “Por que andar de quatro?”. Muito pelo contrário. Cada um de nós trataria de espichar as orelhas, de alongar a cauda e ferrar o sapato. No primeiro desfile cívico, o brasileiro estaria trotando na Presidente Vargas, solidamente montado por um Dragão de Pedro Américo. E seria lindo toda uma nação a modular sentidos relinchos e a escoucear em todas as direções”. Quando plantei 100 pés de jaqueira fui taxado de louco. Ora! Apenas porque refleti!

Um comentário:

  1. Dr. Paulo César,
    Muito obrigado por esta excelente aula sobre a jaqueira, fruto do qual sou fã, mas nunca fiz pesquisas sobre ela, O Sr. citou que as jaqueiras estão sendo usadas para o fabrico de móveis, estão derrubando as mais frondosas e às vezes seculares, basta dar uma voltinha entre mangabeira até sapeaçu que se vê várias barracas vendendo este tipo de móveis fabricados com jaqueiras, o poder público "se é que existe", tem que se manivestar contra isso.
    Adoorei a matéria...parabéns Professor e Dr. Paulo Cesar, obrigado ao Cruz das Almas News pela excelente postagem.
    Gosto muito dejaca mola passada na farinhade mandioca.

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