terça-feira, 26 de julho de 2016

As Crônicas de Paulo Cesar: Presos políticos no período militar atuaram como “professores” instruindo bandidos comuns durante a convivência no cárcere.

No livro “Comando vermelho, a história do crime organizado”, o autor, Carlos Amorim descreve como a experiência da luta armada pelos esquerdistas foi transferida lentamente para bandidos comuns no convívio eventual dentro das cadeias, com destaque para a “Ilha Grande” e o “Complexo Penitenciário do Frei Caneca”. A relação entre presos comuns e presos políticos foi mais produtiva para o criminoso comum, na Ilha Grande, onde estavam representantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), da Aliança Libertadora Nacional (ALN ou Alina), da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e da VAR-Palmares que pretendiam instalar no Brasil o regime comunista com a queda da ditadura. Diversos presos políticos que depois passaram a ser ministros, deputados e senadores ensinaram táticas utilizadas em operações complexas, que envolviam estruturas intrincadas e muitos recursos: seqüestros de diplomatas e os assaltos a residências milionárias. O livro de Carlos Amorim indica que o Comando Vermelho nasceu da convivência entre criminosos comuns e ativistas políticos dentro do presídio da Ilha Grande, entre os anos de 1969 a 1978. Ali os militantes esquerdistas ensinaram aos bandidos as técnicas de guerrilha que eles viriam a usar em suas operações criminosas e os princípios de organização político-militar. A convivência entre presos políticos e bandidos comuns é antiga no Brasil, reconhece o autor. Há muito tempo foi constante e sistemático o esforço dos comunistas para doutrinar criminosos e enquadrá-los na luta política. Um dos líderes do movimento de 1935, Gregório Bezerra, conta em suas memórias como "transformou guardas penitenciários e bandidos em militantes comunistas". No período do Estado Novo, o autor conta que "o contato com intelectuais, militares radicais, políticos e sindicalistas fez a cabeça de punguistas e escroques. A partir dessa convivência, muitos homens deixaram para trás as carreiras no crime e optaram pela militância revolucionária". Os procedimentos usados pela guerrilha e copiados pelo crime organizado podem ser elencados em uma lista gigantesca, destacando-se: a) realização de assaltos simultâneos em vários bancos para desorientar a polícia; b) nos dias dos assaltos, bombardear os postos policiais com dezenas de alarmes falsos c) cada vez que sair para uma operação armada deixar montado um "posto médico" para atender os feridos, pois, antes os bandidos deixavam à sua própria sorte, expondo-se à delação por vingança; d) em caso de emergência, invadir pequenas clínicas particulares selecionadas de antemão, obrigando os médicos a dar atendimento aos feridos; e) designar uma pessoa para ficar de fora observando toda a ação, sem participar, no intuito de identificar possíveis falhas que seriam corrigidas na próxima ação. Esta é a figura do “crítico”; f) planejar as ações armadas com exatidão, de modo a obter no mínimo de tempo o máximo de rendimento com o mínimo derramamento de sangue; g) planejamento para uma retirada do local da ação no menor tempo possível, aproveitando-se da conformação das ruas, congestionamento, inclusive provocando deliberadamente acidentes de trânsito; h) informação e contra-informação como base do planejamento; i) esquema de "aparelhos", que são casas compradas em pontos estratégicos da cidade, para ocultar fugitivos após as operações e guardar armas; j) seleção das armas mais convenientes para cada tipo de operação; fabricação de explosivos apropriados para o uso na guerrilha urbana, como coquetéis-molotov com uma fórmula especial preparada por estudantes de Química e "bombas de fragmentação com pregos acondicionados junto à pólvora e enxofre num tubo de PVC ou numa lata do tamanho de uma cerveja". Os criminosos comuns aprenderam ainda que o dinheiro proveniente dos assaltos deveria ser aplicado para render algum tipo de juros. Os militantes compravam dólares e ações na bolsa - os bandidos que absorveram a lição passaram a comprar cocaína, armas e imóveis. Em 2002 foi aprovada pelo Congresso Nacional, a lei 10.559 – ou simplesmente a Bolsa Ditadura (como foi batizado pela imprensa) – com o objetivo de reparar danos impostos a cidadãos brasileiros durante o regime militar estabelecido em 1964. Os custos com esta bolsa já passam de R$ 2,5 bilhões aos cofres do país em pensões e compensações. Fernando Gabeira, que participou de movimentos armados contra a ditadura, do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick e acabou exilado por dez anos, nunca pediu a indenização a que teria direito. Ele disse: “Não solicitei porque minha atividade naquele período foi consciente. O risco estava bastante nítido para mim”. O humorista Millôr Fernandes, que também recusou o benefício, pronunciou esta frase de efeito: “Quer dizer que aquilo não era ideologia, era investimento”? (Foto: Presidio de Ilha Grande)

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