sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

As Crônicas de Paulo Cezar Lemos: A MATA DE MANINHO DE CAZUZINHA

Quem chega a Cruz das Almas avista logo aquela reserva florestal denominada “mata de Maninho” ou “mata de Cazuzinha”. Para muitos não passa de uma mata. Com este nome genérico ela vem sendo encarada há décadas. Cruz das Almas é um dos menores municípios do Brasil em extensão territorial. Está encravada na área da Floresta Umbrófila Densa, segmento da Mata Atlântica, da qual faz parte a reserva de Cazuzinha. Nos dias atuais, uma reserva florestal daquele calibre enobrece uma cidade. Torna-a diferenciada. Mas, para tanto é preciso, miseravelmente, um pouco de sensibilidade pelos gestores e cidadãos do município. Há cerca de 10, 12 anos atrás fui procurado para fazer um projeto no sentido de dinamizar o uso da mata de Maninho, de tal forma que ela se incorporasse às atividade da cidade. Ao entregar dois disquetes com o projeto ao então Secretário de Agricultura do município, o mesmo disse: “Aleluia. Pelo menos alguém fez alguma coisa pela matinha”. Vai gestão, vem gestão. Foi-se a fase dos disquetes, começaram os CD´s e até hoje, nada. É preciso saber que aquilo não é apenas uma mata. Ali estão os Aspidospermas que chamam de camaçaris e que as madeireiras de Cruz das Almas, por décadas trouxeram do Pará com o nome de massaranduba e que cobrem muitas residências de nossa cidade. São testemunhos da Floresta Umbrófila Densa que justificaria, ao lado dos cedros, sucupiras, ipês, leguminosas, carobas, jaqueiras do mato, paus ferro, inhaíbas, entre outras árvores ali presentes, a criação do Jardim Botânico da cidade. Poderia ser realizada a coleta e comercialização de sementes e mudas de espécies nativas e raríssimas da Mata Atlântica. Necessitaria para tanto a operacionalização de um site correspondente. Aquela mata deve ter sido visitada em seu esplendor, pelos Tapuias que habitavam o Recôncavo, sendo expulsos posteriormente, para a região do vale do São Francisco pelos Tupis, os novos ocupantes desta faixa da Bahia, segundo Gabriel Soares. Em um museu na cidade de Salvador tive acesso a um livro escrito por um jornalista quando o mesmo veio a Cruz das Almas visitar Dr. Lauro Passos e conseguir charutos Suerdieck. Em uma foto está uma marinete atolada próximo à cidade de Cachoeira e o jornalista de paletó e gravata tentando liberar o veículo da lama, ao lado de outras pessoas. Ainda não havia asfalto. Achei interessante a frase que o mesmo pronunciou ao ver a mata de Maninho. “Uma preciosidade destas agora vai ter vez com a escola de agrônomos que está sendo implantada”. Parece que o pensamento do jornalista não se concretizou. A reserva continua do mesmo jeito, ou pior. Os professores e alunos das universidades estão mais preocupados em salvar o planeta, pagar a dívida histórica com os negros, ou salvar os índios, ou as crianças africanas, ou as baleias e até mesmo os imigrantes da Síria. É cômodo defender uma bandeira destas e esperar sentado tranquilamente, pois jamais serão molestados, desde quando o que estão fazendo está muito longe e não serão cobrados. Defender uma mata em nosso meio parece não ser interesse de ninguém. Há cerca de oito anos encontrei naquela relíquia florestal que sobrou da Mata Atlântica, uma nova espécie vegetal. Pertence ao gênero Manihot, sendo um parente silvestre da mandioca. Desde que foi criada a Escola de Agronomia, tantos profissionais tiveram acesso à mata e não detectaram a planta. Tudo indica que ela ocorra apenas naquele local. Chama-se isto de espécie endêmica. Se acabar ali, não mais existirá no planeta. Não estou mais na ativa, mas passei todas as informações para um professor da UFRB e um pesquisador da Embrapa. Só por este motivo aquela reserva poderia ser tombada como patrimônio, pois detém a última população de um ser vivo na terra e que deverá ser denominada Manihot cruzalmensis, em homenagem ao nosso município. Talvez se Neymar, Pelé, Ronaldinho, Renan Calheiros, Lula, Dilma ou Pablo arrocha ou qualquer figura deste calibre tivesse ali urinado, poderia o ambiente se tornar local de atração pública, inclusive com a cobrança de ingresso.(Foto: Dae Santos)

*É proibida a reprodução total ou parcial deste texto, por qualquer meio, sem prévia autorização
do autor  Prof. Paulo Cezar ou do site www.cruzdasalmasnews.com.br.

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